Pérgamo — Fidelidade sem concessões
Centro político e religioso com templos, altar e santuário de Asclépio. A paisagem monumental ajuda a compreender a visibilidade pública dos cultos.
Pérgamo
Atual Bergama · Ásia romana
Referência
Apocalipse 2:12-17
A cidade
Centro político e religioso com templos, altar e santuário de Asclépio. A paisagem monumental ajuda a compreender a visibilidade pública dos cultos.
A cidade por detrás da carta
Asclépio: procurar cura num santuário
A doença colocava a esperança, a família e a fé à prova.
O Asclepeion de Pérgamo era um centro de cura dedicado a Asclépio, o deus grego da medicina. O santuário e a sua nascente atraíam pessoas à procura de alívio. Para quem ali chegava, a esperança de recuperar a saúde estava ligada à presença e ao auxílio da divindade.
Para sentir o dilema, pensemos numa família com alguém doente. Se os seus próximos depositavam confiança naquele santuário, afastar-se do culto podia ser entendido como recusar uma possibilidade de cura. A pressão podia vir de pessoas que amavam o doente e procuravam ajudá-lo.
Referências bíblicas
Apocalipse 2:13
Fontes
A serpente e o cálice de Hígia
A ligação entre a medicina antiga e um símbolo das farmácias.
Na tradição grega, Hígia, filha de Asclépio, estava associada à saúde. A sua imagem com uma taça e uma serpente está na origem do cálice de Hígia, adotado mais tarde como símbolo da farmácia. O símbolo moderno conserva assim uma imagem da tradição religiosa grega.
O bastão de Asclépio é diferente: apresenta uma serpente enrolada num bastão e tornou-se um símbolo da medicina. No cálice de Hígia, a serpente aproxima-se da taça. Distinguir os dois ajuda a reconhecer a herança destes cultos em imagens que ainda hoje vemos em contextos de saúde.
Para um habitante antigo, estes sinais pertenciam ao mundo dos deuses e da proteção esperada deles. Reconhecer essa origem ajuda-nos a perceber a familiaridade do culto de cura no ambiente da cidade. A saúde, que hoje encontramos num serviço ou numa instituição, surgia ali também ligada a uma relação religiosa.
Referências bíblicas
Fontes
Associações: pertencer a um grupo tinha um preço
Amizade, honra e culto à mesma mesa.
Uma inscrição de Pérgamo do século I homenageia o dirigente de uma associação de Dioniso. Regista membros, responsáveis pelos hinos e funções rituais. Os participantes usavam o título religioso de boukoloi, “boieiros”. A associação oferecia uma identidade partilhada, com nomes, cargos e reconhecimento público.
As guildas de ofício e as associações religiosas pertenciam a um mundo de relações pessoais. Quando o convívio incluía culto, recusar a participação podia criar distância em relação ao grupo. O custo podia sentir-se na amizade, na reputação e no lugar que uma pessoa ocupava entre os seus conhecidos.
Referências bíblicas
Apocalipse 2:14-15
1 Coríntios 10:14-22
Fontes
O ginásio e Hera: crescer entre exercício, cultura e culto
Treinar nu, receber educação e encontrar o seu lugar na cidade.
O grande ginásio de Pérgamo ocupava três terraços na encosta, num conjunto construído no século II a.C. e ampliado ao longo do tempo. Era um lugar de exercício e de formação: os ginásios gregos reuniam treino físico, aprendizagem e convívio. Para um jovem e a sua família, fazer parte desse ambiente podia significar educação, amizades e reconhecimento na cidade.
Na tradição atlética grega, os homens treinavam nus. A própria palavra ginásio está ligada a gymnós, «nu». O corpo exercitado era admirado como expressão de disciplina e excelência. É com esse costume público e socialmente valorizado que devemos imaginar os espaços de treino e a experiência de quem ali crescia.
Num terraço imediatamente acima da parte superior do ginásio erguia-se o santuário de Hera Basileia, «Hera Rainha». O templo tinha uma posição destacada sobre o conjunto; as suas estruturas de sustentação ligavam-se às do ginásio. Ao olhar para cima a partir daquela zona de exercício e educação, encontrava-se também a presença monumental de uma deusa. A paisagem da formação cívica incluía os santuários da cidade.
Imagina uma família cristã a desejar que o filho aprendesse e tivesse amigos, enquanto procurava ensinar-lhe fidelidade a Cristo. Quando o convívio envolvesse honrar os deuses, teria de explicar aos outros onde colocava os seus limites.
Referências bíblicas
Apocalipse 2:13-16
Fontes
DAI · O grande ginásio de Pérgamo
Escavações de Pérgamo · O santuário de Hera Basileia, p. 102
Zeus Soter e o Grande Altar
O título de “salvador”, os altares e a proteção da cidade.
Zeus era honrado com o título Soter, “salvador” ou “libertador”. A publicação das inscrições de Pérgamo regista um altar de Zeus Soter na ágora, a praça pública. O título exprimia a proteção e o socorro atribuídos ao deus: a segurança da comunidade também era pensada em termos religiosos.
Na acrópole erguia-se outro monumento: o Grande Altar, construído no século II a.C. A sua dedicação é habitualmente associada a Zeus e Atena, embora os nomes dos deuses não se tenham conservado na inscrição. Uma ampla escadaria conduzia ao recinto dos sacrifícios; o friso mostrava os deuses a vencer os gigantes. Este é o altar cuja reconstrução parcial se encontra em Berlim, distinto do altar de Zeus Soter referido na ágora.
Para quem crescia em Pérgamo, essa linguagem de poder fazia parte da paisagem e do orgulho da cidade. A grandeza dos monumentos tornava visível aquilo que a comunidade celebrava. Uma pequena igreja confessava Cristo dentro desse mundo de honra e autoridade.
Referências bíblicas
Apocalipse 2:13
Fontes
Roma e o poder da espada
O culto imperial e a autoridade de aplicar a pena de morte.
Tácito recorda que Pérgamo recebera um templo a Roma e Augusto. O culto imperial ligava a cidade à autoridade romana através de honras religiosas. A lealdade pública e a adoração podiam encontrar-se nos mesmos gestos.
A expressão latina ius gladii significa “direito da espada”: o poder de aplicar a pena de morte. O Digesto conserva uma formulação jurídica posterior que atribui esse poder aos governadores de províncias. Gladius designa a espada; ius gladii designa a autoridade para condenar. O gladius romano também tinha dois gumes: a comparação com a espada de Cristo diz respeito à autoridade, e não a uma diferença no número de gumes.
Referências bíblicas
Apocalipse 2:12-16
Apocalipse 1:16
Isaías 11:4
Fontes
Tácito · Anais 4.37 e 4.55–56, honras imperiais
Digesto 1.18.6.8 · Poder da espada (testemunho jurídico posterior)
Como Cristo se apresenta
Aquele que tem a espada afiada de dois gumes.
Temas da carta
A espada que sai da boca de Cristo
Referência
Apocalipse 2:12; 2:16
Fontes
Apocalipse 1:16
Isaías 11:4
Cristo apresenta-se com a espada afiada de dois gumes. Em Apocalipse 1:16 e 2:16, essa espada sai da sua boca: a imagem liga o seu juízo à palavra que pronuncia. Isaías 11:4 também descreve o rei justo a ferir a terra com a palavra da sua boca.
Apocalipse usa o termo grego rhomphaia. A autoridade de Cristo julga também o ensino tolerado dentro da igreja: a advertência de combater com a espada da sua boca acompanha a ordem de arrependimento. Resistir ao poder humano não dispensava a comunidade de responder pelo que aceitava entre os seus membros.
Contexto histórico
O trono de Satanás e Antipas
Referência
Apocalipse 2:12-13
Fontes
Cristo conhece o lugar onde a igreja vive e reconhece que conservou o seu nome. Antipas é chamado testemunha fiel e foi morto entre eles. A fidelidade elogiada tinha sido demonstrada numa situação em que confessar Cristo já custara uma vida.
O “trono de Satanás” tem sido associado ao altar de Zeus, ao culto imperial ou ao conjunto dos cultos da cidade. A identificação permanece debatida.
Contexto histórico
Balaão, nicolaítas e a mesa dos ídolos
Referência
Apocalipse 2:14-16
Fontes
Números 25:1-3
Números 31:16
1 Coríntios 10:14-22
A carta relaciona o ensino de Balaão com alimentos sacrificados aos ídolos e imoralidade. O apelo é ao arrependimento.
Balaão é a figura do Antigo Testamento ligada ao conselho que levou israelitas à infidelidade (Números 31:16). Números 25:1–3 descreve refeições sacrificiais e culto a Baal-Peor. A carta usa esse precedente para denunciar um ensino que tornava aceitável participar na idolatria.
“Comer dos sacrifícios” podia envolver uma refeição com significado religioso, não apenas a origem de uma peça de carne. Em 1 Coríntios 10:14–22, Paulo explica que participar na mesa de um culto expressa comunhão com esse culto. O dilema é a lealdade a Deus quando o convívio social exige participação religiosa.
Contexto histórico
A pedra branca, o novo nome e o maná
Referência
Apocalipse 2:17
Fontes
Ovídio · Metamorfoses XV, 41–48
S. A. Hunter (1921) · História das interpretações da pedra branca
Matthijs den Dulk · As promessas aos vencedores
Êxodo 16:32-34
Êxodo 28:9-12
O maná era o alimento que Deus deu a Israel no deserto; uma porção foi guardada como testemunho dessa provisão (Êxodo 16:32–34). Prometê-lo a quem recusa a mesa dos ídolos apresenta Deus como aquele que sustenta os seus. A pedra branca tem um novo nome, conhecido por quem a recebe: a promessa reúne sustento, acolhimento e identidade recebidos de Cristo.
Uma hipótese é a absolvição: Ovídio descreve pedras brancas e negras como votos de absolvição e condenação. Outra vê uma tessera, sinal de admissão ou hospitalidade, aproximando a pedra do alimento prometido. Uma leitura bíblica aproxima pedra e nome das pedras gravadas do vestuário sacerdotal (Êxodo 28). São propostas, não uma identificação resolvida.
Contexto histórico
Para acompanhar a leitura
Que concessão estamos a justificar para sermos aceites?
Na comunidade hoje
Examinar práticas aceites para preservar influência, aceitação ou vantagens económicas.
Na vida pessoal
Identificar concessões que contradizem a fé professada.
Referências bíblicas
Números 25:1-3
Números 31:16
Êxodo 16:32-34
1 Coríntios 10:14-22