Fruto do Espírito
Estudo bíblico: Fruto do Espírito. O fruto do Espírito e o carácter de Cristo.
A Unidade do Fruto do Espírito
Gálatas 5:22 («ὁ δὲ καρπὸς τοῦ πνεύματος»)
«Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio. Contra estas coisas não há lei.»
Paulo apresenta o fruto do Espírito no singular e reúne qualidades que moldam a vida do discípulo. A imagem de um cacho ajuda a considerar esse crescimento como um todo. Para facilitar o estudo, organizamos as qualidades em três grupos, reconhecendo que todas se expressam na relação com Deus e com o próximo.
Impede o autoengano moralista de quem diz: "sou muito alegre e amoroso, embora não tenha domínio próprio nem paciência". O carácter do discípulo é trabalhado como um todo harmónico à semelhança da estatura de Jesus Cristo.
O Conflito Irreconciliável: Carne vs Espírito
Gálatas 5:16–17
«Digo, porém: Andai no Espírito e jamais satisfareis a concupiscência da carne. Porque a carne milita contra o Espírito, e o Espírito contra a carne, porque são opostos entre si; para que não façais o que porventura seja do vosso querer.»
Existe uma guerra civil diária no interior do crente. A natureza caída adâmica («a carne») clama por orgulho, vingança e prazer egoísta. O Espírito Santo habita no redimido para subjugar essas inclinações mediante a graça e o arrependimento contínuo.
O carácter cristão não é alcançado por mero esforço ascético humano ou força de vontade estoica, mas pela rendição diária ao senhorio do Espírito Santo («se vivemos no Espírito, andemos também no Espírito», Gl 5:25).
A Crucificação da Carne e das Suas Paixões
Gálatas 5:24; Romanos 6:6
«E os que são de Cristo Jesus crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências.»
Na união com Cristo pela fé, a tirania soberana do pecado foi desfeita na cruz. O crente não negocia com o pecado nem o acarinha; pronuncia sobre as suas paixões carnais a sentença de morte da cruz.
Produz um carácter íntegro e vigilante, que corta pela raiz a raiz da inveja, da maledicência, da impureza sexual e da soberba antes que se transformem em actos de ruína pública.
A Videira e as Varas: O Segredo da Fecundidade
João 15:4–5
«Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós. Como a vara de si mesma não pode dar fruto, se não permanecer na videira, assim também vós, se não permanecerdes em mim. Eu sou a videira, vós as varas... porque sem mim nada podeis fazer.»
Nenhuma vara produz uvas por pressão mecânica ou esforço angustiado; ela frutifica espontaneamente na medida em que a seiva da cepa circula nela livremente. A comunhão diária com Cristo em oração, na Palavra e na obediência é a fonte indispensável do fruto.
Livra o discípulo da exaustão religiosa do ativismo oco e gera uma serenidade resiliente: o carácter piedoso é o aroma natural de quem passa tempo real e profundo aos pés do Salvador.
Amor
ἀγάπη
agape
Para com Deus
Referências bíblicas
Gálatas 5:22
1 Coríntios 13:4–8
1 João 4:7–12, 19
Romanos 5:5
Amor incondicional, sacrificial, voluntário e desinteressado que busca o bem supremo do outro independentemente do seu merecimento, nascido do próprio amor de Deus derramado no coração pelo Espírito.
Jesus no Calvário («Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem», Lc 23:34) e a entrega total da Sua vida pelos Seus próprios inimigos enquanto éramos ainda pecadores (Rm 5:8).
Egoísmo voraz, narcisismo, busca de proveito próprio, frieza afetiva e inimizade.
O amor é o alicerce e a coroa de todo o carácter cristão («o vínculo da perfeição», Cl 3:14). Ele extingue o ressentimento, impele ao perdão sem limites e faz o crente tratar os outros com a dignidade que receberam da Criação divina.
Sou capaz de servir e desejar a bênção sincera de alguém que me ofendeu, prejudicou ou que não tem absolutamente nada para me oferecer em troca?
Alegria (Gozo)
χαρά
chara
Para com Deus
Referências bíblicas
Gálatas 5:22
Filipenses 4:4
Habacuque 3:17–19
João 16:22
Neemias 8:10
Alegria que nasce da relação com Deus e da esperança nas Suas promessas, sustentando o crente também em tempos de tristeza, lágrimas e sofrimento.
Jesus, que «pela alegria que lhe estava proposta suportou a cruz, desprezando a ignomínia, e assentou-se à destra do trono de Deus» (Hb 12:2).
Ingratidão cultivada e murmuração que despreza a bondade de Deus.
Alimenta a esperança e a perseverança nas dificuldades e ajuda o discípulo a consolar outros. Paulo descreve esta convivência entre tristeza e alegria em 2 Coríntios 6:10.
No meio das minhas tristezas, como posso recordar a fidelidade de Deus e acolher o consolo que Ele oferece?
Paz
εἰρήνη
eirene (hebraico: shalom)
Para com Deus
Referências bíblicas
Gálatas 5:22
João 14:27
Filipenses 4:6–7
Romanos 5:1
Colossenses 3:15
Paz que procede da confiança em Deus e guarda o coração no meio das dificuldades, acompanhando o crente nas suas lutas e inquietações e orientando-o para a reconciliação com o próximo.
Jesus a dormir pacificamente no barco no meio da tempestade furiosa no Mar da Galileia (Mc 4:38), e dizendo aos discípulos aflitos: «A minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá» (Jo 14:27).
Discórdias alimentadas, hostilidade e procura de conflito.
Ajuda o discípulo a apresentar as suas inquietações a Deus e a procurar a paz nas relações, crescendo como pacificador (Filipenses 4:6–7; Mateus 5:9).
Como posso entregar a Deus as minhas inquietações e contribuir para a paz nas minhas relações?
Longanimidade (Paciência)
μακροθυμία
makrothumia (ânimo longo / grande fôlego)
Para com o Próximo
Referências bíblicas
Gálatas 5:22
Efésios 4:2
Colossenses 1:11; 3:12
2 Pedro 3:9
Tiago 5:7–8
Capacidade espiritual de suportar provocações repetidas, demoras, injustiças e fraquezas alheias durante um longo período sem explodir em ira furiosa nem desistir de amar o pecador.
A paciente perseverança de Jesus com a lentidão de entendimento, disputas de poder e falhas constantes dos Seus doze apóstolos, inclusive perante a negação de Pedro.
Impaciência crónica, explosões de cólera, espírito vingativo de retaliação e intolerância com os erros alheios.
Cultiva a paciência de quem também recebe a graça de Deus, ajudando a responder às falhas alheias com mansidão e a exercer a correção com amor.
Como reajo perante a lentidão dos meus filhos, os defeitos do meu cônjuge ou as falhas de irmãos na fé? Com desdém agressivo ou com a tolerância amorosa da longanimidade?
Benignidade (Amabilidade / Doçura no Trato)
χρηστότης
chrestotes
Para com o Próximo
Referências bíblicas
Gálatas 5:22
Efésios 4:32
Romanos 2:4
Colossenses 3:12
Tito 3:4
Disposição afável, terna, cortês e acolhedora que se recusa a ser áspera, sarcástica ou humilhante, buscando tornar a vida do próximo mais leve através de palavras e gestos amáveis.
A ternura de Jesus para com a mulher com hemorragia de sangue (Lc 8:48) e para com a mulher encurvada por um espírito de enfermidade (Lc 13:12), chamando-as com doçura e restaurando a sua honra.
Aspereza, rispidez verbal, ironia ferina, sarcasmo destrutivo e frieza distante.
Cura o veneno do sarcasmo e da grosseria no temperamento. Faz com que a presença do crente seja um refrigério onde pessoas feridas e tímidas encontram segurança e respeito.
O meu tom de voz habitual em casa, no trabalho e na congregação transmite cordialidade acolhedora e respeito, ou magoa os outros com frieza ou rispidez defensiva?
Bondade (Ação Generosa Prática)
ἀγαθωσύνη
agathosyne
Para com o Próximo
Referências bíblicas
Gálatas 5:22
Romanos 15:14
Efésios 5:9
2 Tessalonicenses 1:11
Atos 10:38
Zelo ativo pela virtude moral que se traduz em atos práticos e generosos de socorro, justiça e socorro às necessidades materiais e espirituais dos homens, combinando retidão e beneficência.
Jesus de Nazaré, do qual o apóstolo Pedro resume a biografia inteira: «o qual andou por toda a parte fazendo o bem e curando a todos os oprimidos do diabo» (At 10:38).
Malícia, avareza calculista, indiferença cruel perante a miséria e atos maldosos encobertos.
Livra o carácter cristão da passividade teórica. A pessoa boa não apenas "não faz o mal", mas toma a iniciativa corajosa e sacrificial de fazer o bem concreto a quem precisa.
Quando vejo uma necessidade real diante de mim, tomo a iniciativa imediata de socorrer com os meus recursos e tempo, ou fico preso em desculpas teóricas?
Fidelidade (Lealdade / Firmeza de Caráter)
πίστις
pistis (fidedignidade / integridade)
Para com o Próprio Ser
Referências bíblicas
Gálatas 5:22
Mateus 25:21
1 Coríntios 4:2
Apocalipse 2:10
Salmo 15:4
Firmeza inabalável, integridade de palavra e lealdade a Deus, à família e aos compromissos assumidos, de modo que a pessoa seja absolutamente confiável mesmo perante prejuízo pessoal.
Jesus, a Testemunha Fiel e Verdadeira (Ap 3:14), que cumpriu toda a vontade do Pai até à morte, e cuja Palavra é a Verdade inalterável.
Traição, infidelidade aos votos conjugais, falsidade nas promessas, oportunismo inconstante.
É a espinha dorsal da reputação do discípulo. O homem fiel cumpre o que prometeu mesmo que isso lhe custe dinheiro, cansaço ou conforto («jura com dano seu e não se retrata», Sl 15:4).
As pessoas podem confiar plenamente na minha palavra e lealdade? Cumpro os meus horários, pagamentos, promessas e votos conjugais com rigor irrepreensível?
Mansidão (Poder sob Controlo Submisso)
πραΰτης
prautes
Para com o Próprio Ser
Referências bíblicas
Gálatas 5:23; 6:1
Mateus 11:29; 5:5
1 Pedro 3:4, 15
Tiago 3:13
Não é fraqueza, passividade ou cobardia, mas força espiritual domada e submissa à vontade de Deus; ausência de arrogância e recusa obstinada em impor os próprios direitos pela força bruta.
Jesus Cristo: «Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas» (Mt 11:29); que ao ser insultado não respondia com insultos (1 Pe 2:23).
Arrogância prepotente, soberba vingativa, imposição truculenta de autoridade e vaidade ferida.
Capacita o crente a corrigir o irmão caído com ternura («vós que sois espirituais, restaurai o tal com espírito de mansidão», Gl 6:1) e a responder à crítica sem cair na lama do revide inflamado.
Quando sou contrariado, criticado injustamente ou repreendido, reajo com ferocidade orgulhosa para defender o meu ego, ou aceito com serenidade humilde e mansidão?
Domínio Próprio (Temperança / Autocontrolo)
ἐγκράτεια
enkrateia (poder interior sobre os impulsos)
Para com o Próprio Ser
Referências bíblicas
Gálatas 5:23
1 Coríntios 9:25–27
2 Timóteo 1:7
2 Pedro 1:6
Provérbios 25:28
Governo espiritual das paixões, apetites corporais, pensamentos, língua e impulsos carnais pela autoridade do Espírito Santo, mantendo a disciplina da alma focada na glória de Deus.
Jesus no deserto jejuando durante 40 dias e rejeitando resolutamente todas as três ofertas sedutoras de Satanás (fome física, presunção milagrosa e poder temporal carnal, Mt 4:1–11).
Descontrolo emocional, bebedeiras, gula insaciável, vício na pornografia, desordem verbal e compulsão desenfreada.
O sábio adverte: «Como cidade derribada, que não tem muros, assim é o homem que não tem domínio próprio» (Pv 25:28). O domínio próprio é a muralha protetora de todo o carácter cristão.
Eu domino os meus hábitos (ecrãs, redes sociais, alimentação, apetites sexuais e gastos financeiros) pelo poder do Espírito Santo, ou sou escravo das minhas próprias compulsões?
O Fruto vs Os Dons na Avaliação do Discípulo
Descrição
Os dons revelam a generosidade do Doador no serviço do Reino; o fruto revela a realidade da salvação e da maturidade interior do discípulo. É possível exercer dons carismáticos com um carácter infantil ou carnal (como em Corinto), mas é impossível manifestar o Fruto do Espírito sem uma profunda união de vida com Cristo na cruz.
A Mudança da Vontade e dos Desejos
Descrição
A regeneração operada pelo Espírito não consiste numa maquilhagem exterior de boas maneiras sociais farisaicas. Ela opera uma troca de afeições: o coração outrora escravo do amor ao pecado passa a amar a santidade, a verdade e a justiça, sentindo repugnância natural pela imoralidade e pela hipocrisia.
O Forno da Tribulação como Instrumento de Maturação
Descrição
O fruto não atinge a doçura e a maturidade num clima estéril e sem ventos. Deus usa as contrariedades, a perseguição, as ofensas no trabalho e as enfermidades para podar a vara (João 15:2) e fazer brotar a verdadeira longanimidade, a mansidão provada e a alegria que não morre na tempestade.
A Métrica Bíblica do Falso Profeta: «Pelos Frutos os Conhecereis»
Descrição
Jesus ensina a reconhecer os falsos profetas pelos seus frutos (Mateus 7:15–20). A avaliação considera o carácter e a conduta ao longo do tempo, juntamente com a fidelidade do ensino a Cristo (1 João 4:1–3).